

Casa Estação da Luz
Rua Prudente de Moraes, 313 • Olinda

O título desta exposição traz a geografia, mas não como mero recurso retórico, para celebrar a obra do genial Alceu Valença e os seus mais de cinquenta anos de carreira. A começar pelo Nordeste que é, antes de tudo, uma direção geográfica, mas aqui se insere como uma consciência íntima da sua produção artística. É com o reconhecimento de um imaginário nordestino de paisagens, ritmos, expressões, lugares, frutas, bichos e tantos amores, que se reúnem os elementos que impregnam uma estética viva e contemporânea.
Do início da sua carreira no final dos anos 1960 até os dias de hoje, esteve muitas vezes classificado dentro daquilo que remete às matrizes populares: um artista regional. Assim como fazem com a arte considerada "naif", o "regional" serve para delimitar um espaço retraído daquela produção, reduzindo-a ao seu local de sua origem. Isso é, sem dúvida, uma perspectiva colonizadora que Alceu sempre combateu de forma altiva, fazendo com que o seu regional fosse vivo, expansivo e, por que não, universal?
É um questionador nato das linhas e entrelinhas dos por quês da valorização dos elementos estrangeiros frente à nossa própria cultura brasileira, tão infinitamente rica e diversa. Sem nenhum complexo de inferioridade e com a sabedoria de defender aquilo que aprendeu nas suas vivências em São Bento do Una, ele percebeu que o seu caminho seria o da afirmação da sua própria geografia. Inseparáveis, ele que a leva, e ela que lhe eleva pelos quatro cantos que canta e encanta pelo mundo.
Rafael Antonio Todeschini – curador
Confira a nossa visita guiada digital narrada pelo próprio Alceu, comentando o que você encontrará ao visitar a exposição “Alceu Valença, uma geografia visceral nordestina” na Casa Estação da Luz.
Fotografias: Fred Jordão
Montagem: Rafael Valença




Com mais de duzentos objetos, entre fotografias e vídeos históricos, peças do acervo pessoal e obras de arte, a mostra dá conta da trajetória, da poética, da musicalidade e das questões que a obra de Alceu Valença suscitam para a construção de um imaginário tradicional e contemporâneo do Nordeste.
Durante os últimos dois anos, a equipe de pesquisa guiada por Todeschini fez uma fina clipagem e leu tudo que foi publicado sobre Alceu na imprensa brasileira e internacional desde os anos 1960. Outra fonte de pesquisa foi o livro Pelas Ruas que Andei, uma biografia de Alceu Valença (Cepe Editora), lançada em 2023, uma caudalosa narrativa que refaz a trajetória do músico por meio de entrevistas diretas e material de arquivo.
Além de passagens biográficas como a mudança para viver de música no Rio de Janeiro, a época de estudos em Harvard e o sucesso do disco Estação da Luz, a pesquisa encontrou também pérolas como o bilhete de Jorge Amado em agradecimento a Alceu por ter se inspirado na figura do escritor para compor Chuva de Cajus, do álbum Estação da Luz. O texto foi encontrado reproduzido na edição do Diário de Pernambuco de 4 de novembro de 1985: “Canto de pássaro, grito de guerra, a caatinga árida e o verde canavial, o povo nos limites da vida, eis a música de Alceu Valença, terno e profundo menestrel do Nordeste.”
A exposição irá apresentar parte do acervo fotográfico pessoal do artista, assim como fotografias de Cafi, Carlos Horcades, Léo Aversa, Mário Luiz Thompson, Tânia Quaresma e Toinho Melcop. Serão expostas também obras de Aline Feitosa, Bajado, Getulio Maurício, J. Borges, Marcos Cordeiro, Marisa Lacerda, Sérgio Lemos, Sérgio Ricardo, Véio e Wellington Virgolino.
Entre os artistas visuais, Marisa Lacerda, por exemplo, pintou a tela que serviu de capa do premiado disco Maracatus, Batuques e Ladeiras, que, em 1995, rendeu tanto a Alceu, como à artista, reconhecimentos no antigo Prêmio Sharp, atual Prêmio da Música Brasileira. Aline Feitosa, noutro exemplo, recria em cerâmica uma réplica da casa da Fazenda Riachão, em São Bento do Una, onde o menino Alceu nasceu e começou a tomar contato com a poesia, a música e linguagens expressivas da cultura popular de Pernambuco.
A exposição irá apresentar também obras como a tela de Sérgio Lemos que inspirou a composição de "Morena Tropicana", e uma escultura do artista plástico Véio intitulada “Coração de Artista”, esse coração que pipoca dentro do peito – diga-se de passagem, que foi Jackson do Pandeiro que sugeriu a Alceu para trocar “explode” para “pipoca” na letra de “Coração Bobo”. A exposição irá apresentar ineditamente a gravação de algumas músicas do show apresentado por Jackson e Alceu juntos no Projeto Pixinguinha, em que eles cruzaram o Brasil durante o ano de 1978.
Além disso, haverá a exibição de diversos vídeos: a entrevista que Alceu deu informalmente para Mario Luiz Thompson no primeiro dia da primavera de 1981, que é intercalado por diversas apresentações ao vivo dele do mesmo período; o precioso filme “Nordeste: Cordel, Repente e Canção” (1975), de Tânia Quaresma; trechos de “A Noite do Espantalho” (1974), de Sérgio Ricardo e “A Luneta do Tempo” (2014), do próprio Alceu; registros em super 8 feitos também por Mario Luiz Thompson durante apresentações do show “Vou Danado pra Catende”, que deram origem ao disco “Vivo!”; a apresentação que Alceu e Paulinho Rafael fizeram no canal Antena 2 na França, em 1979, durante o período em que moraram lá; uma coletânea de videoclipes de diferentes épocas da carreira de Alceu e outras participações emblemáticas de Alceu nos canais de TV brasileiros.
A exposição Alceu Valença – Uma Geografia Visceral Nordestina fica em cartaz até 18 de agosto. “Esta mostra sobre a obra de Alceu é, sem dúvidas, a maior e mais densa exposição que já realizamos aqui na Casa Estação da Luz. Uma mostra importante porque não evidencia apenas a grandeza da obra de Alceu, mas como ela revela e projeta um Nordeste contemporâneo. Durante sua permanência, contudo, manteremos a programação em outras linguagens, como música e cursos, além de outras exposição de menor densidade”, diz Natália Reis, ao lado de Yanê Valença, sócia-gestora da Casa Estação da Luz.
“Há tempos, pensava numa exposição sobre a vida e obra de Alceu que pudesse mostrar sua diversidade e a profunda ligação com sua terra, São Bento do Una, Recife, Olinda, Pernambuco, Brasil!”, diz Yanê. “Alceu nunca sentiu vergonha do seu sotaque. Nunca se rendeu a tendências do mercado. Sua obra reflete, através das canções, das poesias, das prosas, do filme A Luneta do Tempo, da forma que canta e interpreta, o imaginário coletivo genuinamente brasileiro. Como Alceu afirma em uma entrevista: "Eu tenho uma missão, que é inflar a alma brasileira, a alma nordestina. Porque num país que está ficando cada vez mais colonizado, sou a favor total da cultura brasileira. Nós somos o máximo. O Brasil é o máximo". Acredito que essa seja ‘a missão’ da exposição”.
Incentivado pela Lei Rouanet, a exposição tem patrocínios da Copergás, da Ambev, do Atacarejo e apoio da Safe.



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